home Uncategorized Jornalistas que tuítam – Twitter

Jornalistas que tuítam – Twitter

O vício do Twitter desmoraliza veículos de imprensa e os próprios jornalistas

Fonte: FOLHA Demétrio Magnoli

O New York Times, arrependido de uma orientação formulada muitos anos atrás, acaba de recomendar a seus jornalistas que se desintoxiquem do Twitter. No fundo, o memorando interno do jornal argumenta que o jornalismo profissional é incompatível com a militância política nas redes sociais.

“Podemos depender demais do Twitter como ferramenta de reportagem ou feedback —o que é especialmente nocivo quando nossos feeds se tornam câmaras de eco”, diz o memorando.

As redes sociais fragmentaram a Agora. No lugar da antiga praça central do mercado de ideias criada pela imprensa, surgiram incontáveis palanques isolados: bolhas discursivas frequentadas por tribos ideológicas. O jornalista viciado no Twitter comporta-se como qualquer internauta: imagina que a sua bolha representa a “opinião justa” e nutre-se psicologicamente dos aplausos virtuais que obtém.

Sede do Twitter em São Francisco, nos Estados Unidos – Stephen Lam – 11.jan.21/Reuters

“Tuítes de impulso danificam nossa reputação jornalística (…) bem como nossos esforços para animar uma cultura de inclusão e confiança”, alerta o NYT. O vício do Twitter desmoraliza a “reputação jornalística” dos veículos de imprensa e dos próprios jornalistas. Como solicitar ao leitor o pagamento por reportagens assinadas por jornalistas que, nas redes sociais, operam como militantes de projetos partidários ou movimentos sociais?

Abaixo da superfície, há algo mais. O memorando está dizendo que o programa jornalístico não combina com as certezas ideológicas absolutas típicas das tribos amalgamadas pelas redes sociais.

O que é programa jornalístico? A imprensa profissional só pode existir em sociedades abertas, que respeitam os princípios da liberdade de expressão e da pluralidade de ideias. Por isso, a imprensa não busca a “neutralidade”. Jornalistas que defendem ditaduras nas quais a expressão (e a imprensa) tem que se submeter à “verdade estatal” só são jornalistas no nome.

Objetividade jornalística, por outro lado, é uma utopia necessária que deriva do programa jornalístico. A imprensa busca a objetividade (sem jamais alcançá-la) pois acredita que, para além das guerras de narrativas, existe uma verdade factual. A alegação de Putin, de pretender “desnazificar” a Ucrânia, esbarra no fato incontestável de que a Ucrânia não vive sob o nazismo.

Mas a busca da objetividade tem um sentido mais profundo, ligado ao princípio da pluralidade de ideias. O jornalista tem o dever de reconhecer a legitimidade básica das ideias dos diferentes atores envolvidos numa controvérsia ideológica —e de embeber seu texto no caldo desse reconhecimento.

Na ponta oposta, jornalistas que defendem a supressão de ideias expressas nos limites da lei não passam de censores disfarçados (exemplo próximo: o comitê Jocevir, Jornalistas pela Censura Virtuosa, nesta Folha).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.